18 de maio de 2026

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Tráfico sabia do plano do governo antes do anúncio oficial

Polícia Tráfico 17/05/2026 08:12 Lívia Nani extra.globo.com

Um policial militar avisou traficantes sobre uma operação do governo para retirar barricadas de comunidades no Rio de Janeiro. As mensagens foram enviadas cinco dias antes do anúncio oficial do programa Barricada Zero.

BRA 1

Era perto do meio-dia de 12 de novembro de 2025 quando os celulares de traficantes da Cidade de Deus vibraram. Um homem escreveu "Recado importante" e enviou um áudio com detalhes sobre o que aconteceria em breve aconteceria na comunidade.

  • Rapinhas da notícia:
  • 1. Vazamento antes do anúncio: Um policial militar avisou os traficantes sobre o programa Barricada Zero cinco dias antes do governo oficializar a operação.
  • 2. Grupo de WhatsApp: As conversas aconteceram em um grupo chamado "PAZ CDD", onde o PM repassava informações sobre as ações policiais.
  • 3. Aviso com detalhes: O policial descreveu como seriam as operações, o maquinário usado e até o cronograma das ações.
  • 4. Pedido para evitar confrontos: Os traficantes queriam saber com antecedência para evitar prisões e mortes, e o PM orientava a não recolocar barricadas.
  • 5. Propina para informações: Os traficantes mencionaram que o "chefe" do policial recebia dinheiro em troca das informações privilegiadas.

O vazamento das informações

Esse homem, que se apresenta como policial militar do 18º BPM (Jacarepaguá), é conhecido pelo apelido de Bigode Mexicano. Ele não é um informante comum: ele seria um PM que passava informações para os criminosos.

As conversas no WhatsApp

As conversas entre o suposto PM e os traficantes foram trocadas entre 28 de setembro e 1º de dezembro de 2025. No grupo de WhatsApp, identificado como "PAZ CDD", ele repassava detalhes sobre operações e orientava os criminosos com base em informações recebidas de um superior, tratado como "chefe".

Após tomar conhecimento pelo EXTRA da existência do grupo e dos diálogos, a Polícia Militar informou que a Corregedoria da corporação abriu um procedimento de investigação para apurar o fato.

A operação Barricada Zero

Naquele dia, policiais do 18º BPM, em conjunto com o 2º Comando de Policiamento de Área (CPA), realizavam uma ação de retirada de barricadas na Gardênia Azul, na Zona Sudoeste do Rio, um preâmbulo do Barricada Zero.

O alerta sobre a operação

No áudio enviado aos traficantes, o agente mostra saber dos bastidores da operação: adiantou que as ações seriam ampliadas para outras regiões do estado, com frequência diária e sem previsão de término. Bigode, como é chamado pelos traficantes, disse ainda que não conseguiria avisar os criminosos com muita antecedência.

"Esse bagulho que está tendo hoje no Gardênia, de tirar barricada, vai se estender sem tempo definido para acabar foco é Gardênia e Cidade de Deus. O chefe falou que, geralmente, quando mandarem, vai ser de uma hora para a outra, quando as máquinas chegarem no batalhão. Então esse é o tempo que ele vai ter para avisar", afirmou, em áudio.

A reação dos traficantes

Traficantes passaram a pedir detalhes sobre as ações. Questionado sobre a frequência na Cidade de Deus, o policial afirmou que a região havia se tornado "o novo foco do governo". Sempre em referência a um superior, identificado em capturas tela enviadas aos criminosos como "Jacaré 18" e "Maioral 18 Novo", Bigode Mexicano detalhou que as operações previstas para os dias seguintes contariam só com uma máquina retroescavadeira.

Cronograma e estrutura

A pouca antecedência nos avisos irritou os traficantes do Comando Vermelho. Um deles, identificado como Jovem Cristo nas conversas, reclamou da limitação no vazamento das informações: "Ele é 01 do batalhão e não consegue saber pelo menos um dia antes". Em resposta, Bigode Mexicano prometeu ficar "na infra o máximo possível", expressão usada pelos criminosos para indicar que permaneceria atento.

O anúncio oficial

Em 17 de novembro, a operação Barricada Zero foi anunciada pelo governo como uma força-tarefa voltada à remoção de obstruções instaladas por criminosos comunidades. A iniciativa, tida como uma das apostas da gestão do ex-governador Cláudio Castro no combate ao crime organizado, reunia policiais militares e civis, além de secretarias estaduais e prefeituras.

A chegada do maquinário

O policial apareceu no grupo às 19h11 daquele dia para avisar que o maquinário usado na retirada das barricadas chegaria ao batalhão em 19 de novembro. Em seguida, informou que a operação começaria na Cidade de Deus na segunda-feira, dia 24. As mensagens mostram uma negociação para reduzir os impactos da operação, com pedidos explícitos para que os criminosos não insistissem na reinstalação das barricadas. À época, o governo anunciou um sistema de bonificação para policiais civis e militares que retirassem as estruturas e impedissem que elas fossem recolocadas.

"As (barricadas) que forem retiradas, não é para colocar, porque vai dar merda. Deixa sem por pelo menos 4 a 5 meses", escreveu o PM.

Na véspera da primeira ação do programa, em 23 de novembro, Bigode informou aos traficantes que seis máquinas retroescavadeiras e três caminhões haviam chegado ao batalhão para ser empregados nas operações previstas para o dia seguinte.

Escondendo tudo

A movimentação dos criminosos na madrugada de 24 de novembro foi intensa. Os traficantes se mobilizaram para a chegada das forças de segurança. Nas conversas, determinaram que fossem guardadas as "mesas" como chamados os pontos de venda de drogas , além da separação de armas, dinheiro, entorpecentes e da retirada de material das bocas de fumo.

Naquela noite, os criminosos monitoraram a saída de quatro blindados, um caminhão-caçamba e retroescavadeiras do 18º BPM, em direção à comunidade. Ao longo do dia, acompanharam em tempo real no grupo a movimentação das equipes por meio de olheiros, que atualizavam a localização dos policiais.

Ao fim das operações que, segundo o balanço do governo, removeram 593 toneladas de barricadas e prenderam sete pessoas em áreas do Rio, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados e São Gonçalo , os pontos de venda de drogas na Cidade de Deus voltaram funcionar, e traficantes passaram a circular armados pela comunidade.

Esse retorno foi reprovado pelo superior em mensagens repassadas aos criminosos por Bigode Mexicano.

"01 falou que o bagulho ficou mal para eles porque caiu a noite e começou a passar os amigos aí de moto e pistola na cintura. Meio que desrespeitou o papo", afirmou, em áudio, às 19h28.

Em resposta ao alerta repassado pelo amigo, Jovem Cristo questionou a cobrança do superior: "Ele deseja quê Que a polícia entre e não role o crime Se for assim então como vamos conseguir o dinheiro dele"

O agente rebateu a crítica em tom de orientação e aconselhou os bandidos a evitar circular pela comunidade enquanto os policiais ainda estivessem na região.

"Espera os caras saírem. Saiu tudo Manda uma formiguinha, uma mulher, uma criança olhar. Não tem ninguém Sai geral para a pista".

"A parte dele é avisar"

Irritado, o traficante afirmou que o superior de Bigode estava "esquecendo" o acordo estabelecido entre eles, chamado de "sintonia", e afirmou que a obrigação dos agentes era avisar com antecedência. Jovem Cristo disse que os traficantes precisavam "trabalhar", citou gastos com advogados e integrantes presos da facção e destacou que o objetivo evitar confrontos e feridos dos dois lados. Ainda lembrou que o "chefe" recebia propina em troca das informações privilegiadas.

"Ele tá esquecendo que ele é polícia e nós é bandido. A parte dele ele tem que fazer, que é avisar. [...] Agora parar o crime não vai ser ele e nenhuma farda que vai fazer isso não, mano. Porque na quarta-feira espera pra ver se ele não vai cobrar o dinheiro dele", escreveu Jovem Cristo.

Bigode respondeu que a preocupação do "chefe" era justamente evitar prisões, mortes e uma eventual ruptura no acordo:

"A preocupação dele é essa: a gente avisa e ainda vai lá e dá porrada [...] A preocupação dele é essa, de quebrar o acordo em cima disso, entendeu 'Vou entrar, vou fazer o que eu tenho que fazer porque estou cumprindo ordem, mas não vou deixar ninguém montar troia, de covardia'."

O alerta sobre lixeiras

Em 27 de novembro, o PM voltou ao grupo para alertar os traficantes sobre a instalação de lixeiras usadas para bloquear ruas da comunidade. Segundo ele, seu superior havia pedido que os obstáculos fossem retirados para evitar novas operações policiais e até exposição na imprensa:

"Ele falou que estão botando lixeira no meio das ruas para fazer barricada, para diminuir o fluxo carro. [...] Fica na infra aí, rapaziada, manda tirar esses lixos".

Mais tarde naquele dia, o governo do estado informou que a Cidade de Deus e outras quatro comunidades "já estavam livres" das barricadas.

Investigação

Além da abertura do procedimento de investigação, a Polícia Militar frisou que "não tolera nem compactua com desvios de conduta entre seus membros, punindo com rigor os responsáveis quando os fatos são comprovados".